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TODA HORA

Narro essa pequena prosa para lembrar dos pequenos momentos de nossas vidas, pois afinal, são esses momentos que guardamos para todo sempre...

Minha casa está num bairro de casas grandes e antigas. É um bairro um pouco perigoso. Temos um quintal bem grande, então sempre tivemos cachorros para vigiar a casa. Atualmente temos duas rottweilers: Luna, a mais nova e Kyara, a mais velhinha. Vale mencionar que com exceção do fato da Luna possuir rabo, uma é a fotocópia da outra.

Devido ao tamanho do quintal elas brincam bastante, quer seja uma com a outra quer seja conosco. São cachorras alegres e sadias, mas ainda assim, são bravas sempre que necessário para proteger nossa casa, ora por pessoas no portão, ora por barulhos durante a noite. 

Mas algo sempre me deixou meio encucado com as duas: Elas simplesmente adoram carinho! É impossível ficar 10 segundos sentado no quintal sem que elas venham pedir alguma carícia. 

Certo dia eu estava tentando ler no quintal e a Kyara não me deixava quieto, constantemente esfregando a cabeça em minhas pernas e mãos para que eu lhe desse carinho. Veja bem, eu adoro meus cachorros, mas às vezes você só quer tomar um sol, ficar quieto num canto e ler. E eu adoro ler... 

Bom, depois de lhe fazer algumas carícias, gentilmente falei: "Passa, Kyara, vai deitar!". O problema foi resolvido... Por uns 30 segundos aparentemente, pois após isso, lá estava ela de novo esfregando a cabeça na minha perna. 

Eu falei: "Poxa, Kyara, você quer carinho toda hora! Assim não dá!". O momento que se seguiu foi memorável... A Kyara olhou pro chão por alguns segundos, depois ergueu a cabeça e me fitou com seus olhos tristonhos. Eu sei que cachorro não fala, mas seu olhar me disse: "Mas eu cuido da sua casa toda hora...".

Larguei meu livro e fui fazer carinho nela... Depois daquilo não podia fazer outra coisa, afinal. E como era de se esperar, a Luna se aproximou para ganhar um pouquinho também.

Hoje em dia, quando saio pra descansar no quintal, deixo o livro dentro de casa...


A ESCADA 

Papai comprou aquele casarão quando eu tinha 8 anos. Tudo era grande. A sala, a cozinha, a piscina e principalmente a escada. Era uma escada de madeira escura bem grande. 

Na primeira vez que subi, contei 10 degraus. Parecia maior antes de subir. Não me importei muito com o número, afinal eu estava muito feliz com a casa nova. 

Todo dia chegava da escola e subia os 10 degraus da escada. Os anos foram passando e eu crescendo. Completei 12 anos numa tarde bem ensolarada. Chamei três amigos para comemorar. Mamãe falou que não podia mais que três. O dia terminou e meus amigos foram embora. 

Antes de subir a escada para ir para meu quarto, decidi subir contando os degraus... Por mais que eu tente não consigo lembrar o motivo do por quê o fiz. O que eu lembro é que contei 14 degraus! Eu sinceramente achei que estava louco, eu jurava que a escada tinha 10 degraus... Bom, deixei esse episódio passar, mas decide contar os degraus esporadicamente pra ver o que estava acontecendo...

Durante os próximos 6 anos, a escada continuou com 14 degraus, contudo quando eu tinha 18 anos, numa manhã bem fria de inverno, decidi recontar os degraus e inacreditavelmente cheguei ao número 17! Eu perguntei pra todos da minha família o que eles achavam que estava acontecendo. Minha mãe me chamou de bobo e me disse que a escada sempre teve 17 degraus. Eu não estava entendendo mais nada e decidi deixar isso pra lá (Por um tempo, pelo menos). 

Quando eu completei 30 anos, meus pais se aposentaram e foram morar num apartamento. Eu fiquei feliz de poder morar sozinho, mas iria sentir muita saudade deles... E além do mais, o que uma pessoa sozinha faria naquele casarão todo? Foi por volta dessa época que decidi recontar os degraus da escada... Eu tinha acabado de chegar do trabalho e decidira tomar um banho, já aproveitei para contar os degraus com todo o cuidado. Eles tinham que ser igual a 17! Tinham que ser... Tinham que... Não eram! Dessa vez eles eram 21! Eu não acreditava, sentei no último degrau da escada e olhei pra ela lá de cima... Consegui lembrar da primeira vez que subi aqueles degraus escuros. Foi a 22 anos. Eu era uma criança enérgica, subi correndo... Faz tanto tempo. 

O enigma da escada me atormentava sempre que possível. Quando me casei aos 36 anos, os degraus já somavam 25... Me dava dor nas pernas só de pensar. Contudo, o tempo passou e acabei deixando esse mistério pra lá. No ano seguinte, tive meu primeiro filho. Os próximos anos foram uma loucura.

Aos 45 anos, um fato me chamou a atenção. Era manhã e eu estava deitado na minha cama lendo um livro quando meu filho entrou no quarto. Ele estava todo enérgico e eufórico assim como eu era quando criança. Ele chegou perto de mim e me disse: "Papai, papai, consegui contar os degraus da escada!". Aquilo me deixou curioso, pois, meu histórico com aquela escada era complicado. Perguntei para ele quantos degraus ele contou. Ele respondeu 10. Dei um pulo da cama! Dez era o exato número que eu havia contado quando tinha por volta da idade dele. Eu disse para ele que aquela escada era um grande mistério e que algum dia talvez ele entendesse, porque eu não entendia mais nada. 

O tempo passou mais e mais, eu já possuía três filhos, duas meninas e um menino. O mais velho se tornou bem responsável e ajudou a cuidar dos outros, era um irmão coruja, se é que dá pra chamar assim. Todos cresceram, se formaram, casaram e constituíram suas próprias famílias. Nessa altura, aos 70 anos eu já era vovô de 6 netos lindos. Eles sempre me visitavam. Eu e minha esposa estávamos vivendo tranquilos naquele casarão que sempre foi minha casa. Meu amado lar. 

Tudo estava em perfeita ordem, com exceção de uma coisa... O mistério da escada. Há uma década que eu não contava os degraus. Naquela vez contei inacreditáveis 36 degraus. Lembro muito bem, pois, no mesmo dia estava com uma dor horrível no joelho. Hoje o dia estava fresco e resolvi conta-los uma última vez. Jurei descobrir qual era esse mistério. Por que motivo os degraus aumentaram com o tempo? 

Coloquei o pé no primeiro degrau e comecei minha jornada... Minhas costas doíam bastante e meus joelhos nem se fala. Cheguei no décimo degrau, mas ainda faltavam muitos. No vigésimo eu já estava xingando o pedreiro que construiu a escada. Ainda faltavam muitos. Cheguei no trigésimo-sexto, o mesmo número de 10 anos atrás. Continuei subindo. Meio sem fôlego e dolorido em algumas partes consegui chegar ao último degrau. O degrau de número 50! Estava feliz de ter conseguido mais uma vez, nos últimos dois anos, subir aquela escada havia se tornado um grande desafio para mim e minha amada esposa. Nós não éramos mais jovens... Nossos corpos não eram mais os mesmos... As areias do tempo voam e levam algo nosso junto... 

Entrei no meu quarto e perguntei para minha esposa: "Amor, o que você acha de mudarmos para um apartamento perto de algum parque ou mudar para uma casa menor no interior? Eu sei que você adora montanhas." Ela me respondeu: "Ai, sem dúvidas! Tá cada vez mais difícil de subir essa escada. Quando mudei pra cá depois de casarmos eu havia contado 30 degraus. E semana passada eu contei 61! Minhas costas andam me matando. Mamãe disse que chegar aos 70 não era fácil." 

Fiquei meio atônito com a resposta... 61 degraus! Só havia uma coisa a responder: "Prepare as malas, amor. Tenho certeza que algum de nossos filhos vai adorar morar aqui." 

Com certeza algum deles também vai tentar solucionar o mistério da escada...

UM PEIXE, UMA VIDA

O dia raiou dourado e cativante como sempre. As nuvens esparsas e vermelhas se assemelhavam a pinceladas de algum pintor romanesco, e desse modo, casavam perfeitamente com os raios dourados do sol nascente. Tal paisagem era costumeira na cidade litorânea de Guiverre.

Giancarlo acordou cedo. Hoje seria um dia especial, era o aniversário de sua mãe. Ele acabou prometendo para ela que pescaria alguns peixes para o almoço, mesmo não estando totalmente a vontade com a ideia.

No passado recente, Giancarlo começou a pensar que todo ser vivo merecia viver. Uma formiga, um leão ou ainda, um peixe. Seja qual for. Também leu em algum lugar que o ser humano era completamente capaz de sobreviver sem consumir carne. E isso o fez pensar o porquê matamos os animais? Costume, necessidade ou algo simples como o sabor da carne?

Giancarlo levantou da cama e foi até o banheiro. Se olhou na espelho. Seus cabelos castanhos e compridos pareciam ter passeado dentro de um tornado. Por algum motivo, Giancarlo abriu a boca e apreciou seus dentes. De súbito um pensamento passou por sua mente quando olhou para seu canino. "Meu canino é menor que o de um chimpanzé, e ainda assim, eles comem banana e nós comemos carne... Tem que haver algo errado nisso...", pensou para si próprio. Sem maiores delongas, Giancarlo se aprontou, tomou café e saiu de casa para cumprir sua promessa.

Sua casa ficava a 100 metros do pontão, o lugar onde habitualmente se amarram os barcos. Seu barco era modesto, se chamava "Il Italiano" e o havia herdado de seu falecido avô. Ele não o usava muito para pescar, e sim, para ira até o oceano, deitar na popa e ler algum livro ou simplesmente ficar olhando para a infinidade azul dos céus.

O dia já estava claro e começava a esquentar quando Giancarlo chegou no lugar que gostava de ficar, a mais ou menos uma milha da costa. Desligou o motor e começou a preparar seu equipamento de pesca. Pegou a carretilha e a fixou numa vara extremamente comprida. Aprendeu por experiência própria que no oceano as varas precisam ser maiores para suportarem a força dos peixes, que geralmente também são mais fortes. A mesma regra vale para a linha de pesca, preparada com um material especial para não arrebentar nem sobre pressão extrema. Em seguida, pegou a isca e a colocou no anzol. Com um movimento sutil e confiante, Giancarlo lançou a vara.  A linha desenrolou por uns vinte metros antes do anzol mergulhar na água. "Pronto, agora é só esperar", falou Giancarlo.

Cinco minutos se passaram até que Giancarlo começou a sentir vibrações na linha, era o sinal de que um peixe poderia estar enganchado. Para se certificar, Giancarlo deu um puxão na vara e em resposta sentiu um puxão do outro lado. Era o sinal de que havia visgado algo. Giancarlo considerava essa a melhor parte da pescaria: Tirar o peixe da água, ver quem iria vencer... Conseguiria o peixe se libertar ou o homem sairia vencedor? Depois de dois árduos minutos lutando contra a força do peixe, Giancarlo finalmente conseguiu puxa-lo para dentro do barco. Exausto, sentou no chão e olhou para o peixe... Era grande, deveria pesar uns 5 quilos. Também era extremamente colorido, Giancarlo nunca tinha visto um peixe assim. Sem entender o porquê, Giancarlo sentiu uma profunda angústia em tirar o peixe da água... Não se sentiria bem em tirar a vida de um animal tão bonito...  Ele olhou, e olhou para o peixe.

Sem pensar muito Giancarlo devolveu o peixe ao oceano. "Bom, eu juro que o próximo não vou soltar, preciso de pelo menos um para levar pra casa", falou em tom desiludido. Repetindo o ritual, colocou isca no anzol e lançou a vara. Dessa vez a linha viajou ainda mais. Giancarlo sentou numa cadeirinha e olhou para o céu. Algumas nuvens se formaram no horizonte, enunciando uma possível chuva durante a tarde. Felizmente nesse horário, Giancarlo já estaria em casa comemorando o aniversário de sua mãe, e se tudo desse certo levaria um belo peixe junto. 

Novamente sentiu a vara vibrar. Deu um puxão. O peixe começou a brigar logo em seguida... Esse era muito mais forte que o outro. Foram longos dez minutos de uma guerra silenciosa entre Giancarlo e o peixe, este último, que agora repousava no chão da proa. Era enorme, deveria pesar pelo menos 15 quilos. Giancarlo não era de se gabar, mas pensou para si próprio que era um excepcional pescador. Contudo, isso não aliviou o pesar que sentiu em tirar um animal tão magnífico de seu lar, quanto mais mata-lo. Giancarlo olhou e olhou para o animal e com algum esforço conseguiu devolve-lo ao oceano... 


"Chega! Chega mesmo! Eu não vou ter dó do próximo! Eu juro por Netuno que o próximo vai virar meu almoço!", gritou para o oceano.


Inflamado por uma fúria duvidosa, Giancarlo preparou a vara uma última vez e a lançou no mar. Quando o anzol, receado de isca, tocou na água, uma calma inesperada acatou seu corpo. Parecia que estar em contato com o desafio o deixava calmo e alerta. Dessa vez ele tinha que conseguir. O desafio não era nem tirar o peixe da água, e sim criar coragem para mata-lo. Tantas vezes ele já pescou e limpou peixes com sua mãe, mas por algum motivo recentemente ele vem tendo esses pensamentos sobre a real necessidade de se consumir animais. Pensando um pouco mais, Giancarlo percebeu que nunca foi muito fã de carne... Nas festanças familiares seu olfato sempre o levava primeiro ao lugar onde estavam os queijos (E quase sempre ficava por lá mesmo). Queijo e vinho, essas sem dúvida eram suas paixões. Sua nonna preparava os melhores queijos da cidade. Ele esperava algum dia conseguir a receita secreta dela...


Um brusco puxão na vara cortou seus devaneios! Giancarlo enrijeceu o corpo, nunca havia sentido um peixe tão forte quanto esse. O ímpeto do peixe era inacreditável, Giancarlo mal conseguia segurar a vara. Tentou durante vários minutos quebrar a resistência do peixe, sem êxito. Decidido a vencer, Giancarlo amarrou a linha nas mãos e gritou para o peixe: "Hoje é meu dia, seu cabeça de sardinha! Eu não vou desistir tão fácil!". A batalha foi intensa, por mais que Giancarlo puxasse parecia que o peixe mal se cansava... O sol brilhava alto e o calor era insuportável... Giancarlo já estava exaurido ao extremo, sua mão até sangrava devido ao atrito com a linha. Decidiu tentar um último puxão para ver ser se o peixe finalmente desistia. Juntou suas forças e puxou a linha com todo vigor possível... Por incrível que pareça, o peixe teve a mesma ideia, e como Giancarlo já estava exausto, ele é quem foi puxado, acabando por cair do barco e ser arrastado para dentro do oceano.


Giancarlo estava submergido nas gélidas águas do mar. Não conseguia acreditar que um simples peixe pudesse ter lhe puxado para fora do barco. Antes de começar a subida para a superfície da água, Giancarlo viu algo que lhe petrificou até o último músculo de seu corpo... Um tubarão gigantesco estava parado e olhando para ele a pouco menos de 2 metros de distância. Seus dentes eram enormes. Giancarlo, conseguiu distinguir um anzol preso na lateral de sua boca. Todo esse tempo, Giancarlo estava tentando pescar um tubarão... Se arrependeu amargamente de ter vindo pescar nesse caloroso dia. Por um momento imaginou sua morte. "Aqui jaz Giancarlo Locarda. Filho amado. Devorado por tubarões", pelo menos ficaria bem engraçado na sua lápide. 


Suas esperanças eram mínimas, ainda mais quando o tubarão começou a nadar em sua direção. Giancarlo sentiu medo e ao mesmo tempo vontade de morrer lutando, estava pronto para lutar por sua vida por pior que fossem suas chances. O tubarão nadou e parou a poucos centímetros de Giancarlo. Por algum motivo, parecia que o tubarão estava analisando Giancarlo. O tubarão olhou, e olhou. E tão inesperadamente como surgiu, se desviou de Giancarlo e nadou para o lado oposto. Giancarlo viu a corpulenta criatura sumir no breu do oceano. Todo o episódio não durou mais que dez segundos, mas foram os 10 segundos mais memoráveis da vida de Giancarlo. 


O jovem rapaz retornou a superfície e subiu em seu barco. Deitou na chão da proa. Estava catatônico com o episódio. Ainda não conseguia dizer se tudo aquilo foi real ou se ele escorregou, bateu a cabeça e imaginou tudo. O tubarão poupou ele? Ou foi apenas sorte? Abriu os olhos e olhou pro céu... As nuvens sempre formavam desenhos para quem estivesse disposto a vê-los. Giancarlo acreditou ter visto a forma de um tubarão nas nuvens. "Dio mio! Chega de tubarões por hoje". 


Giancarlo levantou para se preparar para partir. Viu sua vara jogada num canto e a pegou. A linha estava estourada. Teria que ser um peixe incrivelmente forte para arrebentar uma linha como aquela. Giancarlo olhou para e oceano, lembrou do tubarão e disse: "Obrigado".


Ligou os motores e rumou em direção a sua casa. Não estava levando peixes, mas estava levando uma nova pessoa. Uma pessoa que ia pensar duas vezes antes de machucar qualquer animal. Uma pessoa disposta a apreciar os animais por aquilo que eles são: Maravilhas da natureza. Uma pessoa disposta a abrir mão de carne. Se um tubarão o fez, porque ele não o faria? E acima de tudo, estava levando uma pessoa com uma boa história para contar. Só esperava que alguém acreditasse nela... Infelizmente, pescadores tem fama de mentirosos. Às vezes, não são mentiras que eles contam, e sim, aventuras tão fantásticas que os outros não querem ou não conseguem acreditar... 

O FOGO

Virgínia sempre acreditou que isso poderia acontecer. Ainda assim, por mais que tentasse, não compreendia os atos que presenciava. Poderia muito bem ser algo do além. Inexplicavelmente sucinto... Oportunamente caótico... Realmente não importava. Bastava crer que o milagre, há muito esperado, por fim acontecerá.

O tempo foi seu maior inimigo. Um sujeito cruel que a fez pronunciar a palavra "infelizmente" muito mais do que qualquer um desejaria. A vida, essa antiga conhecida, fora demasiadamente pungente. Mas Virgínia foi recompensada. Seu valor, alcançado através de tanto sangue, finalmente foi testemunhado. Guardado do relento, seus tão almejados sonhos, tornar-se-iam realidade. 

A Sabedoria lhe libertou. Ajudou Virgínia a superar os mais indesejáveis desafios. "Quem diria que nos livros, objetos tão mortos, poderia existir tanta vida?", repetia para si mesma. Seu livro preferido era também um dos mais antigos... Aprendeu a transmitir seus sentimentos da maneira mais sincera. Na simplicidade de uma obra construiu um coração.

Virgínia era outra pessoa. Alguém que sabia que o futuro não seria mais uma dança na penumbra da incerteza. A partir desse dia, sua visão seria nobre e aclamada. Diferente do que já havia se acostumado. Sua felicidade seria vindoura e seu fardo inexistente.

Um tortuoso caminho fora trilhado. Estradas para lugar nenhum lhe apontaram. A inveja alheia lhe derrubou em mais de uma oportunidade. Virgínia constantemente se perguntava: "Por que tanta maldade existe?". Todavia, Virgínia aprendeu a abraçar a persistência. 

O Fogo a sua frente podia ser uma mentira do Algoz. Um sopro da decepção. Ou quem sabe era um delírio arquitetado por sua cansada mente... Mas em seu âmago, Virgínia sabia o que de fato era... A sabedoria acumulada no decorrer de sua jornada lhe permitiu saber diferenciar as armadilhas do mundo. Isso era diferente. Isso era a sua recompensa... O seu momento...

Sua coragem era secreta. Resistente. Com instrumentos limitados, perseverou na busca da felicidade. Conseguiu, na medida do possível, conceder uma boa vida para sua filha. Mas hoje, todos os seus problemas ficariam para trás. 

A flama crescia. Virgínia sentiu seu corpo ser invadido por uma desconhecida energia. Algo singular iria acontecer. Lágrimas escorreram de seu semblante. Seu coração se unificou com o Fogo. 


Virgínia se fez presente perante o Criador. Sua recompensa foi sua voz. Seu tenro brilho resplandecia sobre sua vida. Suas angústias se desolaram na ermo do esquecimento. Suas dores fugiram para o abismo da injustiça. 


Os dias se tornaram mais alvos. A caminhada mais leve. Sua filha se tornara uma bela e íntegra mulher. Sua casa aumentou de tamanho. Sua estirpe se multiplicou. O Fogo cumpria sua promessa. Virgília sempre continuou caminhando em passos retos. Não existia desculpa para a maldade ou para a desistência. Seus netos e bisnetos assim aprenderam. Suas obras se tornaram famosas e em certo tempo lhe renderam louros. Seu suor valeu a pena. 


Virgínia agora era uma senhora e, mesmo tendo passado tanto tempo, ainda lembrava daqueles dias... O dia em que lhe entregaram o Livro. O dia em que ela caiu e o dia em que ela levantou. Mas o dia do Fogo nunca sairia de sua memória... O Criador a contemplou em sua humildade e lhe agraciou com a tão almejada Verdade. 


Hoje ela está preparada para partir. Completar sua jornada. Ela sabe que fez o possível. Foi tolerante e aproveitou todas as oportunidades que a vida lhe deu. Não guardou rancor e não sentiu preguiça de realizar seus objetivos. Acreditou no Fogo e não teve medo de enfrentar seus problemas. Sua fé era seu escudo e nenhuma artimanha do mundo a impediria de crescer e se tornar merecedora dos tesouros além céu.


Virgínia agradeceu seu Criador e adentrou na tão sonhada imortalidade.

A BUSCA 

Ele chorava e lastimava-se intensamente. Suas lamúrias já podiam ser ouvidas no ponto mais distante do Estige. Amaldiçoou Deus, o Diabo e sua Família. 

Municiou. 

A tristeza do Fim. Seu ideal idílico iria se romper. Não adiantava travar mais uma batalha. A Guerra terminou. Ele perdeu. Colecionava lembranças e caminhava na amargura do desespero. Inútil. 

Carregou. 

Era o lobo e o pastor. Era impossível ver e falar. Andou em Santiago e purificou somente o calcanhar. Esta sensação é antiga e indizível. Sofria com o martírio inconsciente dos degenerados. Vociferava e recusava-se. Mas era preciso. Mentira. 

Apontou. 

Não compreendia aquele ato. Não sabia o que fazer. Faltava-lhe covardia. Era um Inverno sem fim. É necessário ter o que para matar algo que se ama? Vilipendiou sua origem, ludibriou os sacrifícios da vida. Sua alma estava fétida. Sua soberba por sabedoria fora sua condenação. A amor foi substituído por rancor. Por quê?

Disparou. 

Ajoelhou-se em sua própria urina, franziu o cenho e fitou inerte aquele objeto de ferro em sua mão. Assim como o ser humano, assim como ele mesmo, ela falhou...