UM PEIXE, UMA VIDA

O dia raiou dourado e cativante como sempre. As nuvens esparsas e vermelhas se assemelhavam a pinceladas de algum pintor romanesco, e desse modo, casavam perfeitamente com os raios dourados do sol nascente. Tal paisagem era costumeira na cidade litorânea de Guiverre.

Giancarlo acordou cedo. Hoje seria um dia especial, era o aniversário de sua mãe. Ele acabou prometendo para ela que pescaria alguns peixes para o almoço, mesmo não estando totalmente a vontade com a ideia.

No passado recente, Giancarlo começou a pensar que todo ser vivo merecia viver. Uma formiga, um leão ou ainda, um peixe. Seja qual for. Também leu em algum lugar que o ser humano era completamente capaz de sobreviver sem consumir carne. E isso o fez pensar o porquê matamos os animais? Costume, necessidade ou algo simples como o sabor da carne?

Giancarlo levantou da cama e foi até o banheiro. Se olhou na espelho. Seus cabelos castanhos e compridos pareciam ter passeado dentro de um tornado. Por algum motivo, Giancarlo abriu a boca e apreciou seus dentes. De súbito um pensamento passou por sua mente quando olhou para seu canino. "Meu canino é menor que o de um chimpanzé, e ainda assim, eles comem banana e nós comemos carne... Tem que haver algo errado nisso...", pensou para si próprio. Sem maiores delongas, Giancarlo se aprontou, tomou café e saiu de casa para cumprir sua promessa.

Sua casa ficava a 100 metros do pontão, o lugar onde habitualmente se amarram os barcos. Seu barco era modesto, se chamava "Il Italiano" e o havia herdado de seu falecido avô. Ele não o usava muito para pescar, e sim, para ira até o oceano, deitar na popa e ler algum livro ou simplesmente ficar olhando para a infinidade azul dos céus.

O dia já estava claro e começava a esquentar quando Giancarlo chegou no lugar que gostava de ficar, a mais ou menos uma milha da costa. Desligou o motor e começou a preparar seu equipamento de pesca. Pegou a carretilha e a fixou numa vara extremamente comprida. Aprendeu por experiência própria que no oceano as varas precisam ser maiores para suportarem a força dos peixes, que geralmente também são mais fortes. A mesma regra vale para a linha de pesca, preparada com um material especial para não arrebentar nem sobre pressão extrema. Em seguida, pegou a isca e a colocou no anzol. Com um movimento sutil e confiante, Giancarlo lançou a vara.  A linha desenrolou por uns vinte metros antes do anzol mergulhar na água. "Pronto, agora é só esperar", falou Giancarlo.

Cinco minutos se passaram até que Giancarlo começou a sentir vibrações na linha, era o sinal de que um peixe poderia estar enganchado. Para se certificar, Giancarlo deu um puxão na vara e em resposta sentiu um puxão do outro lado. Era o sinal de que havia visgado algo. Giancarlo considerava essa a melhor parte da pescaria: Tirar o peixe da água, ver quem iria vencer... Conseguiria o peixe se libertar ou o homem sairia vencedor? Depois de dois árduos minutos lutando contra a força do peixe, Giancarlo finalmente conseguiu puxa-lo para dentro do barco. Exausto, sentou no chão e olhou para o peixe... Era grande, deveria pesar uns 5 quilos. Também era extremamente colorido, Giancarlo nunca tinha visto um peixe assim. Sem entender o porquê, Giancarlo sentiu uma profunda angústia em tirar o peixe da água... Não se sentiria bem em tirar a vida de um animal tão bonito...  Ele olhou, e olhou para o peixe.

Sem pensar muito Giancarlo devolveu o peixe ao oceano. "Bom, eu juro que o próximo não vou soltar, preciso de pelo menos um para levar pra casa", falou em tom desiludido. Repetindo o ritual, colocou isca no anzol e lançou a vara. Dessa vez a linha viajou ainda mais. Giancarlo sentou numa cadeirinha e olhou para o céu. Algumas nuvens se formaram no horizonte, enunciando uma possível chuva durante a tarde. Felizmente nesse horário, Giancarlo já estaria em casa comemorando o aniversário de sua mãe, e se tudo desse certo levaria um belo peixe junto. 

Novamente sentiu a vara vibrar. Deu um puxão. O peixe começou a brigar logo em seguida... Esse era muito mais forte que o outro. Foram longos dez minutos de uma guerra silenciosa entre Giancarlo e o peixe, este último, que agora repousava no chão da proa. Era enorme, deveria pesar pelo menos 15 quilos. Giancarlo não era de se gabar, mas pensou para si próprio que era um excepcional pescador. Contudo, isso não aliviou o pesar que sentiu em tirar um animal tão magnífico de seu lar, quanto mais mata-lo. Giancarlo olhou e olhou para o animal e com algum esforço conseguiu devolve-lo ao oceano... 


"Chega! Chega mesmo! Eu não vou ter dó do próximo! Eu juro por Netuno que o próximo vai virar meu almoço!", gritou para o oceano.


Inflamado por uma fúria duvidosa, Giancarlo preparou a vara uma última vez e a lançou no mar. Quando o anzol, receado de isca, tocou na água, uma calma inesperada acatou seu corpo. Parecia que estar em contato com o desafio o deixava calmo e alerta. Dessa vez ele tinha que conseguir. O desafio não era nem tirar o peixe da água, e sim criar coragem para mata-lo. Tantas vezes ele já pescou e limpou peixes com sua mãe, mas por algum motivo recentemente ele vem tendo esses pensamentos sobre a real necessidade de se consumir animais. Pensando um pouco mais, Giancarlo percebeu que nunca foi muito fã de carne... Nas festanças familiares seu olfato sempre o levava primeiro ao lugar onde estavam os queijos (E quase sempre ficava por lá mesmo). Queijo e vinho, essas sem dúvida eram suas paixões. Sua nonna preparava os melhores queijos da cidade. Ele esperava algum dia conseguir a receita secreta dela...


Um brusco puxão na vara cortou seus devaneios! Giancarlo enrijeceu o corpo, nunca havia sentido um peixe tão forte quanto esse. O ímpeto do peixe era inacreditável, Giancarlo mal conseguia segurar a vara. Tentou durante vários minutos quebrar a resistência do peixe, sem êxito. Decidido a vencer, Giancarlo amarrou a linha nas mãos e gritou para o peixe: "Hoje é meu dia, seu cabeça de sardinha! Eu não vou desistir tão fácil!". A batalha foi intensa, por mais que Giancarlo puxasse parecia que o peixe mal se cansava... O sol brilhava alto e o calor era insuportável... Giancarlo já estava exaurido ao extremo, sua mão até sangrava devido ao atrito com a linha. Decidiu tentar um último puxão para ver ser se o peixe finalmente desistia. Juntou suas forças e puxou a linha com todo vigor possível... Por incrível que pareça, o peixe teve a mesma ideia, e como Giancarlo já estava exausto, ele é quem foi puxado, acabando por cair do barco e ser arrastado para dentro do oceano.


Giancarlo estava submergido nas gélidas águas do mar. Não conseguia acreditar que um simples peixe pudesse ter lhe puxado para fora do barco. Antes de começar a subida para a superfície da água, Giancarlo viu algo que lhe petrificou até o último músculo de seu corpo... Um tubarão gigantesco estava parado e olhando para ele a pouco menos de 2 metros de distância. Seus dentes eram enormes. Giancarlo, conseguiu distinguir um anzol preso na lateral de sua boca. Todo esse tempo, Giancarlo estava tentando pescar um tubarão... Se arrependeu amargamente de ter vindo pescar nesse caloroso dia. Por um momento imaginou sua morte. "Aqui jaz Giancarlo Locarda. Filho amado. Devorado por tubarões", pelo menos ficaria bem engraçado na sua lápide. 


Suas esperanças eram mínimas, ainda mais quando o tubarão começou a nadar em sua direção. Giancarlo sentiu medo e ao mesmo tempo vontade de morrer lutando, estava pronto para lutar por sua vida por pior que fossem suas chances. O tubarão nadou e parou a poucos centímetros de Giancarlo. Por algum motivo, parecia que o tubarão estava analisando Giancarlo. O tubarão olhou, e olhou. E tão inesperadamente como surgiu, se desviou de Giancarlo e nadou para o lado oposto. Giancarlo viu a corpulenta criatura sumir no breu do oceano. Todo o episódio não durou mais que dez segundos, mas foram os 10 segundos mais memoráveis da vida de Giancarlo. 


O jovem rapaz retornou a superfície e subiu em seu barco. Deitou na chão da proa. Estava catatônico com o episódio. Ainda não conseguia dizer se tudo aquilo foi real ou se ele escorregou, bateu a cabeça e imaginou tudo. O tubarão poupou ele? Ou foi apenas sorte? Abriu os olhos e olhou pro céu... As nuvens sempre formavam desenhos para quem estivesse disposto a vê-los. Giancarlo acreditou ter visto a forma de um tubarão nas nuvens. "Dio mio! Chega de tubarões por hoje". 


Giancarlo levantou para se preparar para partir. Viu sua vara jogada num canto e a pegou. A linha estava estourada. Teria que ser um peixe incrivelmente forte para arrebentar uma linha como aquela. Giancarlo olhou para e oceano, lembrou do tubarão e disse: "Obrigado".


Ligou os motores e rumou em direção a sua casa. Não estava levando peixes, mas estava levando uma nova pessoa. Uma pessoa que ia pensar duas vezes antes de machucar qualquer animal. Uma pessoa disposta a apreciar os animais por aquilo que eles são: Maravilhas da natureza. Uma pessoa disposta a abrir mão de carne. Se um tubarão o fez, porque ele não o faria? E acima de tudo, estava levando uma pessoa com uma boa história para contar. Só esperava que alguém acreditasse nela... Infelizmente, pescadores tem fama de mentirosos. Às vezes, não são mentiras que eles contam, e sim, aventuras tão fantásticas que os outros não querem ou não conseguem acreditar... 

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