O FOGO

Virgínia sempre acreditou que isso poderia acontecer. Ainda assim, por mais que tentasse, não compreendia os atos que presenciava. Poderia muito bem ser algo do além. Inexplicavelmente sucinto... Oportunamente caótico... Realmente não importava. Bastava crer que o milagre, há muito esperado, por fim acontecerá.

O tempo foi seu maior inimigo. Um sujeito cruel que a fez pronunciar a palavra "infelizmente" muito mais do que qualquer um desejaria. A vida, essa antiga conhecida, fora demasiadamente pungente. Mas Virgínia foi recompensada. Seu valor, alcançado através de tanto sangue, finalmente foi testemunhado. Guardado do relento, seus tão almejados sonhos, tornar-se-iam realidade. 

A Sabedoria lhe libertou. Ajudou Virgínia a superar os mais indesejáveis desafios. "Quem diria que nos livros, objetos tão mortos, poderia existir tanta vida?", repetia para si mesma. Seu livro preferido era também um dos mais antigos... Aprendeu a transmitir seus sentimentos da maneira mais sincera. Na simplicidade de uma obra construiu um coração.

Virgínia era outra pessoa. Alguém que sabia que o futuro não seria mais uma dança na penumbra da incerteza. A partir desse dia, sua visão seria nobre e aclamada. Diferente do que já havia se acostumado. Sua felicidade seria vindoura e seu fardo inexistente.

Um tortuoso caminho fora trilhado. Estradas para lugar nenhum lhe apontaram. A inveja alheia lhe derrubou em mais de uma oportunidade. Virgínia constantemente se perguntava: "Por que tanta maldade existe?". Todavia, Virgínia aprendeu a abraçar a persistência. 

O Fogo a sua frente podia ser uma mentira do Algoz. Um sopro da decepção. Ou quem sabe era um delírio arquitetado por sua cansada mente... Mas em seu âmago, Virgínia sabia o que de fato era... A sabedoria acumulada no decorrer de sua jornada lhe permitiu saber diferenciar as armadilhas do mundo. Isso era diferente. Isso era a sua recompensa... O seu momento...

Sua coragem era secreta. Resistente. Com instrumentos limitados, perseverou na busca da felicidade. Conseguiu, na medida do possível, conceder uma boa vida para sua filha. Mas hoje, todos os seus problemas ficariam para trás. 

A flama crescia. Virgínia sentiu seu corpo ser invadido por uma desconhecida energia. Algo singular iria acontecer. Lágrimas escorreram de seu semblante. Seu coração se unificou com o Fogo. 


Virgínia se fez presente perante o Criador. Sua recompensa foi sua voz. Seu tenro brilho resplandecia sobre sua vida. Suas angústias se desolaram na ermo do esquecimento. Suas dores fugiram para o abismo da injustiça. 


Os dias se tornaram mais alvos. A caminhada mais leve. Sua filha se tornara uma bela e íntegra mulher. Sua casa aumentou de tamanho. Sua estirpe se multiplicou. O Fogo cumpria sua promessa. Virgília sempre continuou caminhando em passos retos. Não existia desculpa para a maldade ou para a desistência. Seus netos e bisnetos assim aprenderam. Suas obras se tornaram famosas e em certo tempo lhe renderam louros. Seu suor valeu a pena. 


Virgínia agora era uma senhora e, mesmo tendo passado tanto tempo, ainda lembrava daqueles dias... O dia em que lhe entregaram o Livro. O dia em que ela caiu e o dia em que ela levantou. Mas o dia do Fogo nunca sairia de sua memória... O Criador a contemplou em sua humildade e lhe agraciou com a tão almejada Verdade. 


Hoje ela está preparada para partir. Completar sua jornada. Ela sabe que fez o possível. Foi tolerante e aproveitou todas as oportunidades que a vida lhe deu. Não guardou rancor e não sentiu preguiça de realizar seus objetivos. Acreditou no Fogo e não teve medo de enfrentar seus problemas. Sua fé era seu escudo e nenhuma artimanha do mundo a impediria de crescer e se tornar merecedora dos tesouros além céu.


Virgínia agradeceu seu Criador e adentrou na tão sonhada imortalidade.

1 comentários:

Unknown disse...

Parece que a "lei de Marino" teve sua participação importante nessa história triste, não diferente de nossa realidade, que por muitas vezes somos surpreendidos, mas parece que uma força invisível existe e sempre age em nosso favor. Parabéns,Roney.Não perca essa chama de sensibilidade que você carrega, pessoas assim estão em extinção, Bjs

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