Podemos comparar?

Author: Marino / Marcadores:

Quando comparamos certas coisas ou quando reclamamos da vida (sem envolver Deus na questão), sempre aparece algum babaca para dizer: "Agradeça pelo que você tem, podia ser pior".

Uai, assim como podia ser pior, também podia ser melhor. Tem gente em situação pior, também tem gente em situação melhor. Existem trabalhadores de classe média que fecham o mês no aperto, assim como, existem pessoas desempregadas que precisam de ajuda de familiares para sobreviver, assim como, existem herdeiros de bancos na Suíça que só se locomovem de helicóptero e iate e nunca tiveram problemas para pagar suas contas milionários. Percebe?

Mas por que sempre querem comparar com quem está em situação pior? Isso significa que um mendigo de São Paulo não pode reclamar da vida porque na Somália existe um mendigo mais miserável que ele. Ou ainda, um trabalhador de classe média também não pode reclamar de nada devido à existência do mesmo mendigo somaliano. Resumindo, a não ser que você tenha nascido miserável e doente na Somália ou no Afeganistão, você nunca poderá reclamar das injustiças e incertezas da vida.

Esse tipo de psicologia é coisa de gente preguiçosa que não quer se frustar encarando a dura realidade: a vida muitas vezes é injusta! Muitos trabalham, são justos e honestos, mas não prosperam materialmente. Ou prosperam menos do que pessoas que são ímpias e corruptas. 

E essa falta de prosperidade acarreta comparações, estas por sua vez, de acordo com os babacas do mundo que não querem se frustar, só podem ser feitas com pessoas que estão em situação pior. A lógica do fracasso, da preguiça e principalmente, da cegueira. 

Todavia, talvez seja melhor ser cego. Ver o mundo como ele realmente é, quase sempre se torna uma maldição. Por quê quase? Oras, maldição pra quem é pobre ou classe média. Para os ricos, que não falta nada e estão com as vidas plenamente confortáveis (Muitas vezes porque foram corruptos), não faz diferença nenhuma saber disso ou não. Eles continuarão tocando suas vidinhas sem preocupações quer saibam ou não dessa realidade. Apesar que seria muito difícil de um rico chegar a essas conclusões, pois, ele não encararia o mundo dessa maneira "comparativa pra cima", afinal, não tem ninguém melhor do que eles, então não tem o porquê deles se sentirem injustiçados nesse mundo.

Agora quando envolvemos Deus e justiça divina na equação do porquê as coisas são dessa maneira, a discussão fica um pouco mais complicada, porque as pessoas acreditam cegamente em respostas divinas definitivas. Mas mostrarei que até respostas divinas carecem de lógica nesse mundo.

Quando os argumentos supracitados quebram as pernas dos babacas, eles retornam: "Mas o que importa não são bens materiais, o que importa é paz de espírito e a graça de Deus, coisa que muitos ricos não possuem."

Isso é verdade. Com paz de espírito e com Deus no coração, você pode estar morando embaixo de uma ponte comendo sobras encontradas no lixo, que você estará bem. É uma lógica meio bizarra, mas funcional. O problema é que assim como existem ricos sem paz de espírito, também existem ricos com paz de espírito. Nesse panorama, se aplica o mesmíssimo raciocínio anterior. O trabalhador que passa dificuldades mas que crê em Deus poderia se comparar ao rico que também crê em Deus, e não somente com o pobre que crê em Deus. Afinal por que um merece mais do que o outro aos olhos de Deus sendo que ambos são seus servos?

Para piorar, eu gostaria de saber porque Deus permite que uma pessoa que crê nEle seja menos prospera que um rico corrupto? E o porquê essa mesma pessoa não pode comparar sua vida com a de alguém em situação melhor? Isso não faz sentido. Isso não é fé. Isso é fanatismo. E os fanáticos irão dar um jeito de encontrar respostas para tudo: "Deus sabe o que faz", "O tempo de Deus não é o tempo do homem", "Você tem que crer e ter fé que a mudança virá", "O castigo do rico corrupto virá".

Contudo, para todos esses argumentos existem respostas. Senão vejamos:

1. Deus sabe o que faz! 
  • Provações estão presentes na Bíblia (o Rei Davi que o diga). Só me pergunto o porquê um pai onipotente e amoroso como Deus escolheria uma provação para ensinar uma lição aos seus filhos? Você como pai ensinaria o valor da água para o seu filho fazendo ele passar sede? Não, né? Essa é a pedagogia de alguém que tem o intelecto de uma ameba. Me pergunto portanto, por que Deus em todo o seu poder e amor faz isso com seus filhos. Será mesmo que não existe uma maneira melhor para ensinar uma lição à alguém do que através do sofrimento? Ainda mais quando você tem poder para fazer o que quiser
  • Sabemos que muitas pessoas pobres que vivem servindo à Deus, morrem sem nunca ter nada. Sim, eu sei, bens materiais não são importantes e blá blá. Mas por que existem pessoas que vivem servindo à Deus e são pobres e pessoas que vivem servindo à Deus e são ricas? Injustiça divina? Já que os filhos são iguais, ou dá-se igual pra todos ou não dê nada para ninguém. Deus salvou aquela criança. Uai, e por que ele não salvou aquela outra? Pense nessa outra situação: Se você tivesse filhos gêmeos, ambos bondosos e comportados, você daria 100 reais pra um e 10 pro outro no aniversário deles? Não, né? 
  • Esse tipo de situação sem sentido é muito comum na Bíblia. Por exemplo: Receber com festa um filho bebum e mulherengo que abandonou a família, enquanto o filho trabalhador que ficou ao lado da família nunca recebeu a mesma consideração (Lucas 15:11-32). Ou ainda, dar 1 denário para quem trabalhou 10 horas no dia e dar 1 denário para quem trabalhou só 3 horas no mesmo dia (Mateus 20:1-16). Ou ainda, fazer o povo prometido passar por 400 anos de sofrimento e escravidão no Egito, sendo chicoteados e humilhados por adoradores de deuses pagãos (Livro de Êxodo). Faz algum sentido? Bom, para Deus faz.
  • Deus pode até saber o que faz. Mas muito do que Ele faz não tem sentido. Simples assim.
2. O tempo de Deus não é o tempo do homem!
  • Sim, é verdade. Mas às vezes me pergunto se isso não acontece porque o relógio de Deus está atrasado ou adiantado. Oras, porque fazer um crente honesto e justo esperar 50 anos para receber uma benção material? Sendo que alguns crentes honestos e justos recebem bençãos materiais rapidamente. Sendo que até muitos ímpios prosperam rapidamente. Onde está a lógica nessa situação? Aparentemente a justiça de Deus só se reflete temporalmente de vez em quando, não me pergunte o por quê. 
3. Você tem que crer e ter fé que a mudança virá!

Talvez coisas boas só acontecem com quem tem fé?


4. O castigo do rico corrupto virá!
  • Sim, mas geralmente só vem depois de muitos e muitos anos, depois do rico já ter feito mal à muitas e muitas pessoas. Claro que alguns ricos corruptos tem o seu castigo prontamente. Mas não é o caso com a maioria. É só pensar em qualquer político. Agora acrescente banqueiros, herdeiros e toda sorte de pessoas ímpias com riqueza. Eles por acaso são castigados rápido? Ou vivem confortavelmente até seus 75 anos para aí sim começar a ter algum tipo de problema ou crise de consciência? 
  • Vou fazer uma média bem básica só pra ilustrar melhor a situação: Algumas pessoas boas de coração e tementes à Deus vivem 60 anos na provação e 10 anos na benção, isso se a benção vier. Por outro lado, algumas pessoas más de coração ficam ricas rápido ou herdam, vivem 60 anos no conforto físico e 10 anos na provação, isso se a provação vier. Essa situação pode não ser a regra, mas ela existe. E o simples fato dela existir vai contra a justiça de Deus apregoada na Bíblia.
  • Lembrando que a pessoa má pode se arrepender de todo mal que fez (o que acontece bastante, aliás) e ela ainda irá pro céu. Acredito que para muitos, viver no conforto durante 60 anos e ter só 10 anos de provação com a possibilidade de ser salvo inclusive, seria uma escolha melhor do que sofrer 60 anos para ter 10 anos de benção, isso se a benção vier. Quem será que está sendo realmente castigado nesse caso?
  • Isso vale pra qualquer pessoa ímpia, aliás. Seja classe pobre, média ou rica. Por que eles não são castigados prontamente? Quando nossas filhos fazem algo errado deixamos para castigá-los daqui a 20 anos? Não, né? O castigo é instantâneo. Lembro quando eu era pequeno e menti. Quando minha mãe descobriu ela me deu um tapa na boca e eu aprendi que aquilo era errado e eu nunca mais menti. O "tapa" de Deus pode demorar anos pra chegar. Muitos só vão pagar pela maldade muito pra frente, e nesse meio tempo, eles continuam fazendo o mal. A situação inversa também é verdadeira. Muitas das vezes, Deus só recompensará todo seu esforço, bondade e caridade muitos anos no futuro, isso se recompensar, pois de acordo com os babacas fanáticos, "somos todos pecadores e não merecemos nada de Deus. Só de ir pro céu já está ótimo, independente se sofremos 75 anos aqui na terra".
Estou sendo materialista? Estou tentando refletir as bençãos e generosidade de Deus em forma material? Sim! E qual é o grande problema nisso? Jacó pode ter bençãos materiais infinitas (ouro, prata, gado, terras), agora a dona Zilmar não pode, independente se ela é serva fervorosa de Deus com crença e fé além do comum?

Amar o dinheiro e bens terrenos é errado. Usufruir deles não é. Acreditar em Deus e fazer a obra dEle é excelente... Mas acreditar em Deus e fazer a obra dEle com conforto é melhor ainda. Deitar sua cabeça no travesseiro sabendo que você tem Deus no coração é excelente. Deitar sua cabeça no travesseiro sabendo que você tem Deus no coração e sabendo que todas suas contas estão pagas, que seus dois carros importados estão de tanque cheio e que você vai deixar propriedades para seus filhos e netos, é melhor ainda. Se Deus não se importasse com riquezas, ele nunca deveria ter dado prosperidade para os personagens bíblicos. Porque dar pra um e não dar pra outro, não é algo que um pai faria.

Tendo dito tudo isso, que para muitos chega a ser blasfêmia, pode parecer que estou atacando à Deus. Mas não estou. Na realidade estou atacando quem não consegue ver as incongruências da Bíblia na vida real e se usam de subterfúgios, bíblicos ou não, para tentar explicar sua própria falta de compreensão lógica do mundo material. A única verdade lógica que faria sentido no mundo é a de que Deus não se importa com bens materiais, apesar da Bíblia nos induzir a pensar dessa maneira sempre relacionando riqueza à Deus quando alguém serve à Ele (Milhares de cabeças de gado para Abraão, Isaque e Jacó, palácios com centenas de serviçais para Davi e Salomão e etc).

Portanto, fazer esse vínculo é amadorismo hermenêutico, e quase todos os crentes o fazem, mesmo que inconscientemente. Quando um crente recebe algo positivo (uma cura, um emprego, uma casa), ele logo fala que foi benção de Deus, certo? Quer dizer que se ele não recebesse seria o Diabo? Ou o próprio Deus que não quis dar? Mas porque Deus não lhe daria sendo que Ele dá para outros crentes? O que você está fazendo de errado? A resposta não é "estou indo pouco na igreja", "estou fazendo poucas boas ações" ou coisa do tipo, pois, existem pessoas que nem isso fazem e ainda assim, coisas boas acontecem na vida delas. Na realidade, a resposta é acreditar erroneamente que Deus tem alguma coisa a ver com o mundo terreno. 

Deus é conforto espiritual apenas. Quem se ancora em Deus esperando qualquer tipo de benção ou justiça material está perdendo um precioso tempo, mesmo que a Bíblia nos leve a pensar diferente. A prova disso são todas as incongruências já mencionadas até aqui, que aliás, existem muitas e muitas outras, por exemplo: Por que Deus permite que uma criança desenvolva um câncer sendo que existem outros candidatos muito mais aptos para tal sina, como estupradores, satanistas e políticos corruptos? A lista de perguntas é infinita. O problema é que essas perguntas sequer deveriam existir. Bastaria que as pessoas deixassem de atribuir as coisas boas somente à Deus e as ruins ao Diabo. Ou Deus controla tudo ou Deus não controla nada, porque controlar apenas certas coisas, abrindo mão da justiça e equilíbrio quando se analisa comparativamente, é algo que eu tenho certeza que Deus não faria. Bastaria que as pessoas esquecessem Deus no plano material e lembrassem que existe sorte, bondade, coincidência, mérito, maldade e corrupção no mundo. Coisas que partem de nós e do mundo e não de Deus.

Tudo isso não é birra de um menino mimado. Não estou reclamando que a vida seja injusta comigo. Estou reclamando que a vida seja injusta e ponto. E não há Deus na terra para mudar isso. A próxima vez que você estiver num ônibus voltando pra casa depois de um dia árduo de serviço, lembre que em algum lugar tem um herdeiro ricaço, que nunca trabalhou na vida e que gosta de bater em mulher, indo pra uma festa no Mustang dele. 

Minha intenção em falar essas realidades não é te desanimar. Mas mostrar que apesar de tudo isso, nós, por conta própria, temos que aprender a viver com essas situações da melhor maneira possível, sem nos iludirmos com vãs promessas de justiça divina. Se algum dia as coisas melhorarem, que ótimo. Mas tem certas coisas que estão além do nosso alcance, e se elas não melhorarem, paciência. Temos que aprender a conviver com elas, tentando resolvê-las aos poucos quando possível. Até elas se resolverem por motivos terrenos ou por atitude de Deus (que pode ser agora ou daqui 50 anos, vai saber) temos que seguir em frente. Com fé em Deus? Mas é claro. Mas também com fé em nós mesmos.

É difícil admitir que as coisas na realidade não são tão simples como estão dispostas na Bíblia. Por isso muitos não o fazem e preferem viver no fanatismo. O fanatismo impede a visão. Impede que se veja as incongruências. E essa cegueira possibilita uma vida relativamente mais calma e tolerável. Encarar essa realidade é relativamente frustrante, eu sou a prova disso. E repito: não encará-la é coisa de gente cega que não deseja encarar essa realidade para não se frustar. Mas eu prefiro viver na realidade do que viver cego, por mais difícil que seja.

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