Cavalgada

Author: Marino / Marcadores:

Um causo eu ei de lhe contá...
Do galope que hoje fiz
Pros compadre um leite levá.
Foi 'ssim que se seguiu...

O dia despertô em toda sua beldade...
Os sabiá cantavam uma rica melodia.
O café era tostado na moda dos caipira...
Era 'ssim que na fazenda eu vivia.

Firmei minhas botas
Pra uma apartada montaria.
Campos verdes e terras remotas,
Era pra lá que eu ia.

Há duas semana que eu
Bardeava o lidileite pros compadre.
A manhosa deles tava moafa
E seca que nem chão de sertão.

Pra travessia desbastei um pangaré
Que se tardou em fazê domá.
Pangaré que nem os jeca parrudo guentava sigurá.
Era uma diação que só.

Nos coice e nas murdida,
Era 'ssim que ele fazia.
Gostava é de corrê,
E de fazê os otro sofrê.

O cavalo era cheio de finiquito,
Vejamo se a pena valia.
Sem muito agravo
Já logo introxei a sela.

O bicho, amancebado do tinhoso que era,
Carpi de pé já bem queria!
Baita pangaré que sossego
Não lhe era conhecido...

Com o estampido das botas
Já me muntei agarrado nas crina.
Se fô pra me empacotá,
Levo as juba do bicho junto.

Com os zóio de fianco,
O pangaré me marcô.
Rumei às estrada,
Puxei o cabresto e ele galopô.

Cortando os aguacero e os barranco
O pangaré desembestiou do comando.
Passei um angú de caroço
Pra 'certá as rédea e aí puxá com bravura.

Apeei da besta brava,
Lhe garrei pelos pescoço com força da roça e disse:
"Ocê pode ser mais 'teligente,
Ma' eu sô mais forte!"

Depois do banzé com o desar'mado,
Botei-me no lombo do bicho e pincei as anca.
Tinha lonjura pra percorrê 'inda
E muita lida pra 'certá na vórta.

Cheguei na cercania do compadre,
A parelha já tava pronta pro pasto.
Sartei fora do panguaré. Nessa artura
Já tava zambeta e de espinhela caída.

O fio do caboclo me ofereceu o pito.
Me abanquei no casebre e com gosto logo sorvi.
Tabaco dos recanto não tem como pareá,
A veneta da fumaça vem que é sempre...

A jabiraca do compadre veio proseá.
A muié me disse que antisdonte
A manhosa deles tinha vortado a dá leite
E que num ia precisá naquele dia.

Já tava jururu com o perrengue da romagem...
Esgueei pra montaria e vi um sorriso na cara da peste!
O bicho tava de saracoteá comigo!
Senti o vento encanado nos cabelo e me arredei de lá!

Montei no bicho incuado e rumei pra casa...
Não tava mais de paciência pra fuzarca do alazão.
Já disbravei: "Por essa luz que me lomea,
Ocê vai entra na linha!"

Quando caboclo acha que não dá pra
Tê mais catiça, começa a chuvê!
O tinhoso se refestela co'minha desgraça.
Hoje ele se rapelô, mai' amanhã é otro dia!

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